Um Novo Caminho

 

outro caminho

 

Creio que, nos recomeços da vida, seja interessante que caminhos diferentes sejam trilhados ou pelo menos tentados.

Explico:

De todas as minhas crises de fé, a que aconteceu de 2009-2010, foi a mais violenta. Abandonei cargos na igreja, status de guitarrista oficial do grupo de louvor, discordei de quase tudo que haviam em ensinado, pulei fora do barco.

Depois de um tempo lutando contra conceitos, dúvidas e contra mim mesmo, fui salvo pela Graça e resolvi recomeçar. Só que dessa vez com toda atenção a cada detalhe. Quis fazer diferente pra tentar SER diferente.

Foi e é muito difícil. Frequentemente me flagro com saudade de certas coisas, certas “mordomias”, me flagro sozinho, me flagro sem fé nenhuma às vezes. Montanhas de conceitos são impiedosamente demolidas a cada dia.

Mas, ao mesmo tempo, lembro que deve ser isso o tal do novo nascimento que Jesus falou pra Nicodemos e ele não entendeu nada.

Vejo muitos nicodemos por aí…gente que se decepcionou com a instituição, saiu, tornou-se ateu do deus que um dia pregou, apanhou muito por aí, sofreu, re-aprendeu, foi alcançado pela Graça (no meu caso foi ao ler O Evangelho Maltrapilho), retorna  disposto (a) a ser diferente, mas continua trilhando por caminhos iguais aos antigos…

Paulo deve ter passado por essa fase pra dizer que fez coisas de menino e depois, tendo se tornado homem, não pode mais agir como menino.  Passou de fase, não pode ir pelo mesmo caminho de antes, comer a mesma comida, ouvir a mesma coisa.

Experimente uma dieta diferente.

É absolutamente aceitável que você desenvolva um relacionamento infantilista com Deus. Desde que você seja uma criança. (vi essa frase num documentário e jamais esquecerei, apesar de ter esquecido quem disse)

Não gosto de dar conselhos, mas…experimente trilhar pelos caminhos não percorridos, pelos mares nunca dantes navegados.

Esse pode ser seu último novo nascimento.

 

 

 

O que mais encanta e o que mais assusta

Há mais uma coisa sem sentido na terra:

justos que recebem o que os ímpios merecem,

e ímpios que recebem o que os justos merecem.

Isto, penso eu, não faz sentido.

(…)

Os velozes nem sempre vencem a corrida;

Os fortes nem sempre triunfam na guerra;

Os sábios nem sempre têm comida;

Os prudentes nem sempre são ricos;

Os instruídos nem sempre têm prestígio;

pois o TEMPO e o ACASO afetam a TODOS.

[Eclesiastes, NVI]

É isso que me me deixa encantadoramente assustado…

…ou assustadoramente encantado.

[ao som de OK Computer - Radiohead]

Sobre o Vagaroso Trabalho do Tempo

Com certeza você já ouviu:

  • o mundo dá voltas;
  • a vida se encarrega de ensinar;
  • o tempo trará a verdade.

Estes são provérbios, ditados populares, clichês.

Hoje eu tirei a prova dos 9 que certos fundamentalismos o tempo, a vida,  se encarregam de destruir. Não discuta, aguente e apenas dê aquele sorriso de “o mundo dá voltas”.

No meu tempo de adolescente, na igreja, “aprontei” muito. Não era um rapaz fácil de tratar para o líder de jovens ou o pastor.

Fui punido umas 5 vezes com o que, na tradição assembleiana, se chama Disciplina.

Reuniões foram feitas, testemunhas foram chamadas, fomos forçados a confessar os “pecados”. Eu, na minha inocência adolescente, procurava razões paras as punições que eram sempre justificadas pela Sã Doutrina ou os Bons Costumes.

Cresci, me rebelei, discuti, discordei, enfrentei, fui ferido, feri…

De uns tempos prá cá, parei de discutir, de debater. Em partes por aprender a valorizar o diálogo e também por não querer ferir pessoas queridas que, mesmo num ambiente religioso, foram essenciais para a minha formação como pessoa.

Dentro de mim uma rara certeza tomava forma: herege é aquele que descobre que algo não é pecado antes dos outros.

Eu fiz algumas descobertas desse tipo. Os “outros” detinham o poder eclesiástico e não fizeram ou não quiseram revelar que tinham feito as mesmas descobertas que eu. Uma questão de manter o poder, mostrar que tem toda certeza e que jamais se contradiz ou demonstra ter alguma dúvida.

Hoje, 13 de Março de 2012, eu ouvi de alguém que, no passado, me puniu com a tal disciplina assembleiana, que tinha ido a uma praia, curtido um pouco, brincado, jogado futebol depois de 37 anos, tinha se divertido, tinha gostado.

Um discurso oposto do que eu ouvi e senti há 10 ou 12 anos…

Não notei nenhum sinal de culpa ou vergonha na pessoa.

Fiquei feliz por dentro. Um rio de sorrisos fluiu dentro de mim.

Mais alguém conseguiu se libertar de mais um dogma…a gaiola está sendo aberta aos poucos, com o tempo, obedecendo às voltas que o mundo dá. Sem debates intermináveis, sem discussões de bíblia na mão…

Apenas o tempo e a velhice chegando, a experiência, os pés fincados no chão da vida. Essa pessoa descobriu, tardiamente, mas descobriu, que aquilo nunca foi um pecado. Uma pontinha de herege nasceu…

O tempo não para.

:)

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