Oração

Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo. Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio. [Rubem Alves no Livro ‘Teologia do Cotidiano’ falando, entre outras coisas, sobre oração na p. 73]

Sem querer desmerecer qualquer outra definição de oração, ultimamente tenho preferido a oração silenciosa, contemplativa, que observa, que tenta ouvir uma resposta. Acredito que quando paramos para ouvir, quando silenciamos e tentamos observar o que Ele fala, por vários meios e formas, mostramos toda reverência diante do que é inexplicável, do que muito grande para o nosso entendimento. Creio que Deus nos passa vários sinais que, se prestássemos atenção,as coisas seriam mais fáceis. O U2 dá a dica em ‘Wake Up Dead Men’ quando diz:

“Ouça as palavras, elas irão te dizer o que fazer

Ouça o ritmo que te confunde

Veja a palheta no saxofone

Ouça o ruído do rádio

Ouça o som das espadas girando

Ouça através do tráfego circulando

Ouça como esperança e paz tentam rimar

Ouça as fanfarras tocando fora do compasso”

Depois que nos dispomos a ouví-lo, ele sussurrará em nossos ouvidos. Se for pra falar algo, ainda prefiro agradecê-lo por tudo. Duas observações: 1. O silêncio dEle também diz muita coisa. 2. Esperar e ouvir também é caminhar, como diz o Palavrantiga.

Quem tem ouvidos, ouça.

🙂

 

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Um pensamento sobre “Oração

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