Do Contra

“Prefiro duvidar de muitas coisas para acreditar no que é absolutamente essencial.” (Nelson Costa)

Confesso que nunca fui um sujeito muito fácil. Minha mãe desde cedo descobriu minha vocação: “você é do contra.” E as mães sabem de tudo. Na adolescência, eu exerci com todo mérito minha vocação. Era do contra mesmo. Sem causa, sem motivos, apenas pelo puro prazer de discordar, contrariar, descobrir qual a posição oficial sobre determinado assunto para logo depois ir para o outro lado.

Sempre gostei de citações e versículos que confirmassem minha posição, tipo: “Toda unanimidade é burra”; estava sempre disposto a sacar o “provai se os espíritos são de Deus”… Entre outros.

Com o tempo e uns vacilos, fui descobrindo que realmente há razões para ser do contra e que há outras que contrariá-las é burrice. E descobri que ser do contra, sem razão, sem argumentação, sem um porquê, é pura infantilidade. Ainda estou aprendendo a sutil diferença entre julgar e discernir.

Se há um ponto que eu me tornei do contra, com motivos, foi para algumas definições que a tradição cristã e as igrejas dominantes e seus teólogos impuseram ao longo do tempo. Partindo do pressuposto que o livre exame das escrituras é uma das maiores falácias da Reforma Protestante, pois, na verdade, não há livre exame. Há livre acesso. Experimente interpretar qualquer passagem das escrituras diferentemente da interpretação oficial da sua denominação (aquelas enormes notas de rodapé na sua bíblia, feitas por “homens de deus” para te dizer como você deve entender certo versículo), do seu pastor e você verá o seu “livre” exame se desfazendo com as pedradas que você irá tomar.

Então, parto da ideia de que, o que me foi ensinado como sendo Fé, Crença, Pecado, Deus, Heresia, Reino Espiritual, Inferno, Diabo, Igreja, nem sempre é o que as Escrituras dizem e nem sempre o que as Escrituras dizem é Palavra de Deus – Outro detalhe importantíssimo que me ensinaram como sendo a mesma coisa e eu descobri que não é. Escrituras são um conjunto de livros que narram uma série de acontecimentos em que Deus se relaciona com a humanidade, onde tudo conduz ao ápice da narrativa que é Jesus, esse sim,  A Palavra de Deus ou O Verbo Encarnado como João disse.

Ouvi uma vez que uma mente que se abre a novos conhecimentos jamais voltará ao seu tamanho anterior. E é exatamente isso que eu sinto após 3 anos de retorno às leituras de muitos autores, de quaisquer credos ou sem credos. Voltei também à leitura das Escrituras com um olhar à partir de Jesus, sendo crítico o bastante para saber que há certas coisas nela que Jesus aboliu e eu tenho que segui-lo. Como diz Paulo Brabo, nós não somos a religião do livro, somos a religião centrada numa pessoa: Jesus.

Tendo dito isso, eu afirmo a você que é IMPOSSÍVEL que eu acredite em certas coisas que são passadas por aqueles na igreja que se consideram portadores da verdade absoluta e assistentes diretos de Deus para assuntos aleatórios.

Então, antes de me elogiar de chato, ranzinza, crítico contumaz, preconceituoso, frio, incrédulo, herege e corruptor de mentes sadias, lembre-se que a minha vida inteira, eu vivi no ambiente religioso institucional, aprendi e senti na pele o bastante para saber o que é ou não é bom para mim e minha consciência está em paz com o meu Deus. Acredito que minhas dúvidas jamais serão tomadas como afronta pelo meu Deus, ao contrário, penso que ele gosta que seus filhos lhe façam perguntas.

Dúvida NUNCA foi pecado e nem será. João Batista ouviu Deus falando de Jesus e o Espírito Santo descendo sobre ele e, tempos depois, mandou seus discípulos perguntarem se Jesus era Jesus mesmo ou se deviam esperar por outro. Isso não é dúvida para você? E o fato de, depois de tudo isso, Jesus ter chamado João Batista de “o maior homem já nascido de uma mulher” conta para você?

Vamos falar sobre Tomé?

Com certeza, você já ouviu uma pregação sobre não ser “um tomé”. Para a maioria das pessoas na igreja, ele cometeu um dos piores pecados que foi duvidar. O fato é que quase ninguém lembra é, em Jo 11.16, ele foi o único a ter coragem de ir a Jerusalém para morrer junto com Jesus. Notaram a diferença entre duvidar de algumas coisas, mas ter fé que, no fim, tudo vai dar certo? Ele tinha dúvidas sobre os detalhes, como se daria a morte, a ressurreição, mas ele tinha fé que, no fim, iria dar certo, tanto que ele disse “Vamos para que também morramos com ele”.

Para mim, Tomé mostrou toda humanidade que há presente em nós. E o fato de Jesus ter aparecido apenas para se mostrar a Tomé, dando aí, sinais de quanto o discípulo importava para ele? Na época, milhares de pessoas também duvidavam que Ele teria ressuscitado, era a versão oficial divulgada pelos religiosos e apoiada pelo governo. Mas Jesus quis provar sua ressurreição especialmente para Tomé. Já parou para pensar por esse lado?

Com a palavra, Jacques Ellul:

“A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A fé não é o oposto da dúvida, a crença é. Os soldados da crença agem sem questionamento de acordo com a lei e os mandamentos. São inflexíveis nas suas convicções, não toleram a qualquer desvio. Na articulação de sua crença eles imprimem rigor e absolutismo ao extremo. Refinam incessantemente a expressão da sua crença e buscam dar a ela uma formulação intelectual específica num sistema tão coerente e completo quanto possível. Insistem na completa ortodoxia. Codificam rigidamente modos de pensar e de agir.”

Como você acaba de ler e se me conhece um pouco (o propósito desse texto é que você me conheça melhor), eu não tenho nenhuma característica de um soldado da crença. Tudo que eu tenho é uma pequena fé, abalável, não estou firme na rocha, estou mais pra firme no vento, tenho mais perguntas que respostas e as respostas geralmente vem precedidas de ‘talvez’ e ‘eu acho’. Se eu tivesse que te dizer duas certezas que eu tenho dentro de mim, depois de muitas idas e vindas, perguntas não-respondidas e algumas provas dadas por Ele, eu diria que:

  1. Jesus me ama incondicionalmente. Existe um grande amor, existe um amor maior e existe O amor incondicional. Pense sobre essas diferenças.
  2. No final, o amor vence. #robbellfeelings

Portanto, na próxima vez que me vir questionando, duvidando, discordando, em suma: sendo do contra, lembre-se: Eu até tento acreditar em muita coisa que há por aí, mas eu não consigo mais por todos os motivos expostos acima. Chegou um momento na minha vida que eu tive que escolher, assim como apresentado em Matrix, entre a pílula vermelha e mergulhar no desconhecido e investigar o que há por trás da realidade aparente ou tomar a pílula azul e deixar tudo como está.

Adivinha qual pílula eu tomei?!

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Um pensamento sobre “Do Contra

  1. Mto bem… senhor que gosta dos elogios mais entranhos. Tudo verdade meu povo, sou prova viva disso!

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